Árbitro despreza agressores e quer caso como marco no Brasil

Márcio Chagas da Silva foi vítima de racismo no Campeonato Gaúcho

Márcio Chagas da Silva foi vítima de racismo no Campeonato Gaúcho

 

A rotina de treinamentos precisou de uma pausa. Márcio Chagas precisa atender os inúmeros telefones e convites da imprensa para participar de programas. Depois do caso de racismo no Estádio Montanha dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, o árbitro espera que a atitude seja um marco para o que ele considera um problema corriqueiro nos estádios do Rio Grande do Sul: os insultos racistas. Chagas espera uma punição severa, que vire exemplo no Brasil, e dedica indiferença àqueles que gritaram contra ele na última quarta-feira.

Desde o momento que pisou no gramado do estádio do Esportivo, Márcio foi xingado. Suspirou e percebeu que seria mais um dia “daqueles”. No retorno ao vestiário, após o primeiro tempo, novos insultos. Foi quando acionou a Brigada Militar. Antes do segundo tempo, mais xingamentos. O pior ainda estava por vir. Após o jogo, encontrou o carro amassado no estacionamento. Com bananos no teto e no escapamento do veículo. Tudo relatado na súmula enviada para a Federação Gaúcha. Ao chegar em casa e olhar o filho Miguel, de 10 meses, decidiu agir.

“Foi a questão do meu filho, para servir de exemplo. Quando eu cobrar com relação a postura, respeito, ele vai saber que o pai dele teve uma atitude respeitável. Que serviu como um marco nesta modificação de conduta por parte das pessoas”, disse Márcio, justificando a postura de denúncia do fato.

A ideia de Chagas é que o caso possa servir como um marco no futebol e na sociedade do país. E que casos como esse não passem mais de maneira incólume, sem que ninguém seja punido pelos seus atos.

“Sinceramente, espero que seja um diferencial. Não por ter sido comigo, porque sou um cidadão comum, igual aos demais que passam por isso. Mas pela possibilidade de estar tendo essa oportunidade, de mostrar que há uma indignação por parte da sociedade com essa atitude”, relatou o árbitro.

Em 2005, Chagas foi alvo de insultos racistas pelo então técnico do Encantado, Danilo Mior, que o chamou de “negrão coitado” – o treinador levou suspensão de 30 dias. O fato, segundo Chagas, é corriqueiro no interior do Rio Grande do Sul – diz não ter sofrido nada parecido apitando pelo Campeonato Brasileiro. Principalmente na região da Serra.

“É corriqueiro aqui, principalmente no nosso interior. Na região serrana, acontece seguidamente. Estou tendo a oportunidade de falar, de estar em ascensão. Mas com arbitros que não estão tão no topo, ou que passaram”, comentou.

O juiz afirma que conseguiria identificar os responsáveis pelos xingamentos se os visse novamente. Afinal, passou três vezes por os agressores. Olhou nos olhos deles. Se novamente estivesse frente a frente com estas pessoas, reservaria indiferença. Não quer fomentar qualquer agressividade de volta. Estaria agindo de maneira intolerante, como elas.

“Meu sentimento seria de desprezo. Não podemos valorizar esse tipo de gente. É inadmissível que não consigamos conviver em harmonia em 2014. Independente de cor de pele. Se eu for agressivo, seria tão estúpido quanto estas pessoias. A indeferença é melhor”, finalizou Márcio.

Segundo o presidente do Esportivo, Luís Oselame, o clube irá pagar os danos ao veículo. Chagas ainda não recebeu nenhum contato do clube serrano sobre o assunto. Conversou com o mandatário ao vivo no programa Jornal do Almoço, na RBS TV, quando ouviu o pedido de desculpas. Também recebeu uma mensagem do dirigente, que se colocava à disposição para qualquer situação que o juiz precisasse.

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